Carta SOLTA

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Carta SOLTA

Mensagem: Solta

Número: 13

Comentário A Carta SOLTA é uma carta de alforria, uma mensagem de liberdade, uma coisa leve, sem gravidade. Sem medo. Sem apego. Uma certa irresponsabilidade. É um apelo. É um desejo. É uma ordem pela desordem. Solta! Deixa correr a criança.

Liberta! Crie a fera numa cela aberta. Larga! É muita formiga pesada! Ninguém aguenta mais peso. Socorro! Solta as cordas do barco e deixa o barco partir. Dá a Deus. Solta. Me solta. Se solta!

Lindo, né. A carta SOLTA é isso, um direito, um dever, um deslize. Aceita e solta.

Agora, tão importante quanto soltar, é saber pra onde foi. Porque soltar é um ato livre, mas consequência, tem direção. Vai soltar aquele morteiro marca duvidosa, pavio curto, doze tiros de emoção? Solta pra lá. Se soltar pra cá, ou se falhar, fsssits flum e sair por trás, amigo, vai passar queimando pela sua barriga e estourar na sua própria sala de natal em família, BLA BLA BLA BLA BLA BLA BLA BLA BLA BLA BLA BUMBAAA!! 12 tiros, se esqueceu, pode contar. O último é tipo uma malvina. Assusta. A vovó que chora até em anúncio de banco, alma presa por um fiapo de certeza, periga duvidar de estar aqui e ir embora de vez. Triste. Soltou, segura.

Exemplos Ilustrativos de Uso:

A Carta SOLTA não precisa de muito exemplo para ilustrar seus momentos de uso, porque ela é uma vontade natural de todo movimento. Ela pode ser aplicada em qualquer situação que, de tão eminente, uma simples mensagem é mais que suficiente pra fazer uma avalanche.

Estilingue de goiabeira e elástico soro de vaca todo esticado com o repórter estressado entrando ao vivo do seu lado? SOLTA que é fenômeno de comunicação de massa, cumpádi. SPLAU! Mamona machuca, mas não mata, porém humilha. Depois vai pra lan house e SOLTA o video na internet. Pra dar aquele tumulto, aquele viral, aquele processo na justiça estadual. Matéria de agressão. Preenche o cadastro, assina com o email naofuieu@naofoininguem.hahaha.quesefodase e volta para as suas atividades normais.

Como diz meu pai: negue tudo, negue sempre.

– Filho, negue tudo! Negue sempre! Agora, me ajuda aqui, amarra essa caixa aqui.

– Que que tem nessa caixa, papai?

– Negue tudo, filho. Negue sempre.

Atenção, próxima Carta NEGUE TUDO, NEGUE SEMPRE! Alguém precisa tocar nesses assuntos.

Mas isso foi só um antecipassado meu, que já prescreveu e que não precisa ser recordado. Aliás, não é só nos artifícios em forma de fogos e nas contravenções em forma de caixas que a Carta SOLTA se aplica de forma impactante e impressionista. Ela pode e deve ser aplicada em qualquer momento, porque a Carta SOLTA, por definição, não tem limites.

Naquele churrasquinho na casa de alguém, cerveja gelada, todo mundo bem, menos o cachorro que está nervoso porque está preso, latindo e gritando e rosnando e metendo medo. Mas sempre tem aquele convidado, que chegou mais cedo pra sair mais tarde, quando o desejo de todo mundo era que ele chegasse tarde pra sair mais cedo. Babaca. E ele enche tanto o saco sobre o cachorro latindo, que começa a irritar e a dizer pra soltar o cachorro porque ele fez o curso de psicologia animal e está falando pra soltar. Ok. Você mete a Carta SOLTA e solta a porra do cachorro que vai direto em quem? EM QUEM, CARALHO? No próprio babaca que pediu pra soltar, lógico. E o cachorro TCHACO! morde em cima, morde embaixo. Daí depois, você explica pro idiota que o cachorro não fez o curso, enquanto tenta tirar o cachorro da perna dele. SOLTA Bóris, solta ele, solta. Só que o cachorro, não lê legal. Então dá mais trabalho.

E pra abrir a mente, vamos para uma situação diferente, tempos de adolescente fraco de frente se matriculando nas artes marciais pra lutar pela sua dignidade nas ruas do bairro. A academia, que fedia de dia a cachorros soltos de noite, abrigava a nata do halterofilismo do Ingá, que enchia o ambiente com gritos bestiais nas arrancadas de supino, dando um clima de penitenciária, para inocentes como você, que acabou de chegar. Eeeeeeeeeeeeeeiiiiiaa! 300 quilos para alto e um frio na espinha.

Ajoelhado no tatame, esperando a instrução, teu mestre que é faixa preta duzentézimo dan apresenta um novo mestre, um barbudinho baixinho, vestido num colant azul marinho agarradinho, de dar inveja a trapezista.

– Este é professor Paulo Rolla, mestre no Brasil da modalidade Greco-Romana e hoje vai fazer uma demonstração dessa luta olímpica para vocês.

Uni Duni Tê e o escolhido foi você! Claro. Sempre você. E o primeiro desafio é conseguir colocar aquele colant rídiculo, sem se rasgar e nem rasgar o colant! Aí é que é a foda. Tu vai pro vestiário, abre o plástico e tira uma roupinha da barbie, sério mesmo. Uma luva praticamente. E meia hora de estica e puxa, entra e sai, esconde e mostra, tu considera êxito e sai do vestiário completamente suado, apertado, com uma bola pra cada lado, a bunda no fio cavado e o peito liso de fora desde o umbigo, só com os mamilos cobertos pela alcinha esticada. Era uma roupa tensa.

Assim que você se apresenta nessas condições dramáticas, o Professor Paulo Rolla manda na lata:

– Agora vem, solta tudo! Solta o braço, solta a perna! Agacha! Levanta! Vem, solta tudo! Vai. Solta!

Eu vou soltar uma na sua cara, você pensa, mas não age. E ele continua:

– Isso! Vem! Solta. Agora fica aqui de costas pra mim, isso. Agora fica de quatro aqui na minha frente, que eu vou mostrar pra você o primeiro golpe. Vem.

Aí não dá pra segurar, chefe. Carta SOLTA pra você e sua dignidade – nem um vinho?! nem uma palavra bonita?! – E você solta aquela bomba  na cara do Professor Paulo Rolla e foda-se todo mundo e toda a disciplina da arte marcial e todo auto-controle da filosofia, é o caralho!

E você entra na porrada, claro, porque bater em quem sabe é muito mais difícil. Mas pelo menos você deixou a sua.

Aliás, a primeira sempre entra. É o que se aprende na rua.

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