Carta FALA TUDO

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Carta FALA TUDO

Mensagem: FALA TUDO

Número: 7

Comentário: A Carta Fala Tudo é mais uma carta maravilhosa. Tem uma mensagem de entendimento simples, como aliás tem acontecido com as Cartas do Baralhinho do Momento, mas é de cumprimento dificil. 

Diferente de outras Cartas que expressam sentimentos do lançador, a Carta Fala Tudo é um apelo. Um clamor!

Por que do lado de cá há alguém que está, ou acha que está, disposto a ouvir tudo!

E tudo é forte. Fala tudo é forte. Dependendo da situação, e tem cada uma, tem que estar muito firme pra ouvir tudo. Porque o que é tudo pra você que ouve, pode ser um pouco mais pra quem fala. E quando você pede pra parar e o locutor segue: o drama desce, a chuva cai, o namoro termina, o boato se espalha, a fila anda e você perde.

Perde legal. Papo de ficar zé lelé.

– A Carta Fala Tudo pode servir como auto ajuda?

Meu pequeno Willie, todas as cartas do Baralhinho do Momento podem servir como auto ajuda. O Baralhinho do Momento é constituído de momentos e sendo assim ele pode ser usado de infinitas formas, como pode o mundo: o Baralhinho do Momento pode ser usado como auto-ajuda, como oráculo, como moral da história, como final de filme, como pedido de casamento, como porta-copos, como calço de mesa, você que manda, meu colibri. Tudo depende do desejo de quem porta a Carta.

Se você, diante de uma situação de extrema dúvida, no muro de manteiga que separa a felicidade da tristeza, sentir e puxar uma carta, na sorte e a mensagem te iluminar a ponto do possível virar presente e o mundo se derreter de alegria, eu digo: lindo demais! Você venceu.

Mas se der tudo errado também, fazer o quê? Puxa outra. Como diz o fotógrafo Lemos: tenta a sorte, porque o azar é certo.

– Tá.

Agora, se você me permite, vamos voltar para a carta em questão, a Carta Fala Tudo.

Então, como integrante do maravilhoso Baralhinho do Momento, a Carta Fala Tudo também pode ser usada de infinitas formas, mas como a página ia ficar muito louca, vamos listar só algumas:

1) Tua namorada chegou as 7 da manhã, carregada por cinco playboys  de camisa regata, um deles com a calcinha dela na cabeça? Carta Fala Tudo na hora! Mete a carta pra ela, se tiver restado consciência pra falar e depois em todo mundo! E claro, segura a peteca, que lá vem chumbo.

2) Teu pai começa a guardar caixas e caixas de papelão lacradas, pesadas, com cheiro forte, na salinha do meio do teu apartamento e toca o interfone: é a polícia? Carta Fala Tudo pro papai. Rápido que pessoal já tá subindo.

3) Seu amigo do prédio foi convidado a entrar no apartamento daquela quarentona gostosona demais do 1003 e voltou três dias depois, magro, todo esfolado, falando fino e rindo à toa? Fala Tudo nele, já! Com todos os detalhes.

4) Seu cachorro, do nada, entrou na sala, olhou pra você e começou a falar? Fala Tudo, pelo amordedeus!(tem que ver se o cachorro começou a ler também, tá… provavelmente sim, porque a parada enlouqueceu totalmente)

5) Sua geladeira começou a falar e de repeNÃO, aí não. Aí é foda. Geladeira não dá. Se isso começar a acontecer, tu toma uma água do filtro, tira a geladeira da tomada, amarra a si próprio e chama alguém. Quer dizer, chama alguém antes de amarrar a si próprio.

Exemplo Ilustrativo de Uso:

Você jovem, 10 anos de idade, está deitado no sofá da sala da casa de sua avó em Vitória curtindo um He-Man. Na delícia da inocência, você acompanha a trama na espera da personagem Tila aparecer. “Ah…. minha Tila. Como você é bonita e como sua beleza enche meu mundo com essas novas sensações…”

De repente, sua avó entra na sala e você tira a mão da bermuda tão rápido que esquece de soltar o próprio pássaro, que é trazido pra fora juntamente com sua mão. Loucura total e sua avó já grita um:

– Quê isso?!!! Perdeu a vergonha, garoto?!!.

TOMA! E desce-lhe a colher de pau na sua cuca.

– Saliente!!

E na investigação pela boa educação, aperta:

– O que que você estava vendo ai pra ficar assim?!

– Tô vendo He-Man, vó.

– Que He-Man que nada, você tá vendo o vídeocassete!

E sua avó já pega o controle remoto, que você nem sabia que existia, e já mete o play, que você nem sabia que existia, e já surge uma cena, maluco, que você nunca ia imaginar que existia… uma cena de perfuração total de petróleo natural, que você arrepia tanto que acelera seu desenvolvimento sexual em quatro anos.

E TOMA! Outra colherada de pau na cabeça.

– Nao querovervocêvêndoessaservengonhiceseutiovaiverquandochegar!

Passado o susto, porrada dada, cuca doendo e passarinho na gaiola, sua avó revela o que realmente veio fazer na sala:

– E vai no mercado Boa Praça comprar Pão pra rabanada! E vai agora!

Ordem é ordem, neto é neto e você vai do jeito que está. Sem camisa, sem cueca, de chinelo, de bermuda de flanela feita em casa, solto, solto metendo bronca pelas ruas de Vitória, relembrando os passos necessários pra ligar o vídeocassete e dar play na madrugada. Você precisa ver aquilo de novo! Você sabe que precisa.

Balançando o que balança, você sai do prédio em disparada, dobra a esquina e ganha a reta. Movimento forte nas calçadas, o asfalto é a opção inteligente pra quem tem dez anos e poucos quilos. Vindo na contra-mão pra observar melhor o tráfego, você vem estalando a sandália no solo quente. Splat, splat, splat.

De repente, lá no fundo da rua, de dentro da miragem do calor, você percebe um passat bege, daqueles 1987, com a traseira arriada de tanto peso, comandado por um vovô do natal.

Vovô do natal e aquele vovô – falo, porque tive dois, geniais – aquele vovô que aproveita o tumulto da época, a confusão dos parentes na casa, o entre e sai de primos e tios, pra conseguir sair sozinho no seu passat bege, pra comprar o que só ele sabe que tem que comprar e aonde e não se mete e ninguém se mete. Pessoal só vai dar falta dele e do passat bege, quando o neto de 4 anos, depois de meia hora escolhendo as palavras, lança no meio da cozinha: vovô saiu.

Bom, catarata no olho direito, 40 graus de miopia no olho esquerdo, parkinson nos braços e esclerose na cabeça, o vovô natal acelera o passat com saúde, sem medo de nada, nem de ninguém.  Ou melhor, não vendo nada, nem vendo ninguem. Vovô do natal, vocês já sabem como é. Loucura.

E você, ainda moleque pensamento ação, observa o vovô do natal vindo na sua direção ocupando toda a rua, num encaixe que os espelhinhos retrovisores dele vêm batendo nos espelhinhos retrovisores dos carros estacionados, igual entrada de time de basquete. Você maroto, calcula no visual, que dá pra entrar entre aqueles dois carros estacionados ali e parar na frente do Boa Praça, antes do vovô do natal te alcançar e te transformar na nota triste da estação.

Você aperta os chinelos com os dedões do pé e acelera, o vovô passa a segunda (finalmente) e ganha gás. Momento de tensão na Rua Constant Sodré.

Vai dar pra passar, não vai dar pra passar, vai dar, não vai dar, vai dar, não vai dar, DEU!  E você se lança entre os dois carros na ginga do Brasil e ainda com a cintura menor do que a clavícula, vislumbra a segurança da calçada. O vovô do natal passa reto, avança o sinal lá na frente e lotericamente, segue em frente, desaparecendo no horizonte.

Você volta, vê todo mundo te olhando estranho e realiza que naquele breve espaço de tempo, você prendeu sua bermuda de flanela feita em casa no pára-choque de um dos carros, girou na costura caseira fraca e…

NATAL!

Parou nu, completamente nu, diante das caixas registradoras, funcionários e clientes.

Que rabanada, hein?

Você envelhece dois meses em dois segundos e acorda do susto. Um juíz de futebol com a cara da Tila passa por você apitando e fazendo sinal de que tá tudo valendo e você acorda de novo!

Deus deu pernas pra correr e desespero pra voar. E você voa, maluco!

E chorando e correndo, mais chorando que correndo, você alcança e atravessa a portaria com a fé de Moisés. Mas o mármore molhado da faxina de sábado convida você a uma leitura mais de perto do quadro de avisos.

CHATUCA!

Você recobra a consciência rápído, mas perde o elevador e grita. Tira a escala de férias da cara e mete de escada mesmo, 14 andares de agonia pura. E finalmente deságua, literalmente, na porta do 1403, abraçando até onde dava, sua avó autoridade.

E sua avó, assustada pela porta que abriu rápido, perplexa com a situação nua do neto, contaminada pelo momento anterior do videocassete e antenada com as coisas da modernidade, compreende tudo e puxa aquela que seria sua única alternativa:

A carta FALA TUDO!!!!

Bom, meses de interrogatório e não precisa dizer que ninguém acreditou na história do passat (que passat?!), do pára-choque (que pára-choque?!), da bermuda (cadê a bermuda?!) e da costura fraca (que costura fraca?! Eu que fiz essa bermuda! Uma bermuda não rasga assim!).

Teve psicólogo comprando iate, teve psiquiatra viajando pra europa,  teve psicoterapeuta reformando o consultório, teve enfermeira botando 500ml de silicone, mas o importante é que dez anos de financiamento familiar para a área da psicologia não resultaram em nada diferente.

Você até pensou em inventar uma história de abdução, quando te inscreveram na fonoaudióloga (já que esse garoto não fala, o problema é a fala), mas desistiram e você também. A fono pediu muito dinheiro e o pessoal já estava reconhecendo que a história tinha ido longe demais.

E só pra fechar o bingo, he-man e rabanada ainda te dão tremelique no natal.

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OUTRAS CARTAS JÁ OBSERVADAS POR AÍ:

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