Carta É PILHA

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Carta É PILHA

Mensagem: É PILHA

Número: 9

Comentário: A Carta É Pilha, pra ser franco, representa um grito de revolta contra o destino, esse doente.

“Não aceito! Você, destino filho de uma puta, e que puta, você só pode estar de sacanagem! Não acredito que isto está acontecendo comigo agora nesse instante! É bacilo! É bacilo de koch! É brincadeira de criança essa porra toda!” A Carta É Pilha reúne enquanto carta todos estes nobres sentimentos de revolta e indignação perante a qualquer merda que aconteça. Esquema Kaká do milan, você lança a carta no chão, levanta os dedos pro céu e grita: É Pilha!

Sacou? O destino taí, já foi. Já botou no seu colo a jogada. Já largou a granada sem o pino. Já acendeu o morteiro no natal dentro da sala. Já era. O que resta?

A carta É Pilha. Rápido. Jogou, extravasou.

Vai mudar alguma coisa jogar a Carta? Não, mas é um direito seu. É ou não é? Pelo menos você faz um movimento com a mão, faz aquela lançada raivosa que estala no solo a carta. PLÁH! Já alivia alguma coisa.

A carta É Pilha é seu direito de resposta frente ao destino. E direito de resposta, você sabe, não adianta nada, nunca adianta, mas você quer responder de qualquer jeito. E o equivalente naquelas porradarias generalizadas, ao “vou te pegar, filha da puta!” que você grita no final de dentro da ambulância todo arrebentado.

E o Baralhinho do Momento é uma dessas formas de responder ao destino só que mais sutil, mais harmoniosa e mais humilde.

Agora cabe um coméntario leve, sem pressão, apenas do ponto de vista da ressalva, que é importante saber distinguir a diferença entre a carta Não Mete Essa e a carta É Pilha. São diferentes.

Esta diferença entre as cartas é muito sutil e você, praticamente do Baralhinho do Momento, tem que se acostumar com a sutileza do mundo, com a sutileza das coisas e com a sutilieza dos momentos, principalmente. Comida sem tempero, não é comida sem gosto. Comida sem tempero é comida sem gosto de tempero. É diferente isso. Comida sem tempero tem gosto. Qual gosto? Não interessa. Mas tem.

O mundo é cheio dessas pequenas coisas chamadas sutilezas. O Baralhinho do Momento também. A carta Não Mete Essa é uma carta mais apropriada para um momento de revolta frontal direta a alguém, ou a alguma coisa metida por alguém. Cuidado com a metida, hein. Mas entende? A pessoa mete uma, você remete, metendo a Não Mete Essa de volta, significando: essa não!

Agora, a Carta É Pilha é diferente. O momento é diferente. Isto que tem que ficar claro. O momento é de se indignar com o que está acontecendo como um todo. Não é pra lançar contra alguém. É pra lançar contra o planeta, contro o cosmos, contra tudo, é pra lançar contra a existência. É Pilha você manda para cima, para o alto, para si próprio. Porque o que está acontecendo é tão doido e tão extraordinariamente inacreditável que só pode ser pilha de alguém. Ou  pilha do destino, ou pilha do que quer que esteja controlando o lance naquele momento.

Por exemplo, você saiu de casa de camisa pólo branca zero bala, atrasado, pega um taxi engarrafado, tempo ruim, tempo passa, chega em cima do laço no lance, tua gata acena pra você, você paga o taxi e quando você estufa o peito para dar o primeiro passo e entrar no salão do Prêmio do Ano que é seu, você toma uma borrada de pombo graúdo, trabalhando no creme, ombro, peito e parte do abdómem.

– É pilha!

Entendeu? Não tem o que fazer, meu chapa. Não tem lenço, não tem água da bica, não tem cuspe, não tem tempo. Não dá. Acabou. Tchau. Perdeu o prêmio, perdeu a gata, perdeu a blusa. Obrigado.

Sacou a revolta? A Carta É Pilha tirada e lançada forte abre o canal de  violência. É pra a situação como um todo. Todo o evento. A carta Não Mete Essa teria um uso menor se você lançasse ela pro pombo. E nem seria muito proveitoso, porque o pombo já foi há muito tempo. E pombo não lê. Ainda tem essa.

A carta É Pilha, neste caso, não resolve o glacê da blusa, mas pelo menos libera a raiva e encerra a questão. Entenderam a sutileza?

Gente, kung fu não é fácil, escrever em ônibus não é fácil, bater córner não é fácil, andar de costas não é fácil, tocar oboé não é fácil, levantar copo de vidro com o poder da mente não é fácil. É treino.

Baralhinho do Momento não é fácil, é treino.

Exemplo Ilustrativo de Uso:

Você chega da boate cansado. Cansado das luzes estroboscópicas, do som alto, das mulheres bonitas, dos vetos completos e das danças corretas. Nada o ajudou em nada e mais uma vez sozinho, às 4:15 da manhã você está.

Seus amigos seguem pra casa, você entra no seu prédio, cumprimenta a portaria, entra no elevador social, aperta o cinco, percebe que o elevador social está desligado, sai do elevador social, entra no elevador de serviço, aperta o 5 e sobe junto com o conjunto. Badúúúúúúúú….

O elevador chega e a cortina abre. Cansaço forte, sua cama vai ser demais. Solidão, pra quem conhece, tem suas vantagens.

Mas quando você sai no corredor e pisa no chão, você sente mais do que chão, você sente água. Olha pra baixo, pisa de novo, splat, splat, é água mesmo, maluco. Que porra é essa, você xinga em pensamento de dúvida e enquanto caminha pro seu apartamento, você percebe que a água o persegue. E ao dobrar a mini-esquina do corredor, realiza, na surpresa, que a água que desce, e desce forte é sua! Está saindo do seu apartamento!

É pilha!

Você já adrenaliza o corpo, busca a chave no frenesi, enquanto a água jorra gostoso por baixo da porta da cozinha da sua casa. Você abre a porta na loucura e a água acumulada lambe a sua canela esvaziando a cozinha. Parece que uma piscina Tone rasgou na tua frente. Mas não é isso e você sabe. Você não tem uma piscina Tone, a alegria da garotada. E a realidade do momento não é de alegria.

E há dois tipos de problema neste mundo, minha gente: o problema tipo meu, e o problema tipo seu. E esse problema é tipo seu!

E sendo seu, você vai seguindo o fluxo, como aquelas expedições do globo repórter, em busca da nascente do rio 503 bloco 2. Você vai pelo barulho, passa por você um saco de bisnaguinha seven boys e você  realiza que a situação é dramática. Você alcança a área de serviço se agarrando nas coisas e encontra a nascente do rio.

E a nascente do rio é seu pai, de cuecas, bêbado, tentando com o dedo indicador conter, quase que moralmente, porque não está fazendo a mínima diferença, uma enxurrada de água violenta que brota da parede sem parar, no lugar que até agora pouco era o tanque de lavar roupa!

É pilha!

E, amigo, a água que brota da parede, brota num volume, numa potência, que faz a caixa d’água do prédio borbulhar que nem filtro de galão. Bablug, Bablug, Bablug!!!

É pilha! É, é sério.

Teu pai, de dentro do chafariz em que se transformou a sua área de serviço, te reconhece e dá a notícia que você já sabe.

– Filhinho… deu merda.

Porra, claro que deu merda!

– Filhinho… bota o dedo aqui que teu pai vai resolver. Segura aqui essa peteca.

Teu pai tira o dedo do buraco e sai um jato tão forte que teu pai patina surf e cuca o tanque. E cuca forte! Você ajuda, os dois caem, é água pra cacete, teu pai levanta, você afoga, teu pai cai, você levanta e vira briga de palhaço a área de serviço. Meia hora de bobeira, abrindo espaguetti e você e teu pai conseguem levantar juntos, ao mesmo tempo e teu pai sai saindo, meio patinando, meio se apoiando, meio não entendendo porra nenhuma do que está acontecendo.

Você volta pro buraco mete o dedo, tentando fazer o melhor, mas é impossivel. Água é água e a água escapa por tudo quanto é lado. E você que estava cansando, pensando só na sua cama, agora está de pé matando água nos peitos, revezando de dedo no buraco, arriscando a saúde no frio e vendo o tempo passar nos litros e litros de água que se perdem na loucura.

Depois de meia hora, com a pele enrrugada, o dedo indicador azul, o médio paralisado, a camisa transparente e o pulmão assoviando você se pergunta: porra, cadê papai?!

Na busca pela verdade, você abandona o posto, o jato engrossa, a caixa d’água babluga e você mete pela cozinha. É água. Você invade a sala, é água. Rompe pelo corredor, é água. Passa pelo banheiro, é sua mãe sentada não entendendo nada. Você passa pelo escritório, é água. E quando você abre a porta do quarto do seu pai, vem o choque, o verdadeiro choque térmico:

Teu pai está deitado na cama, de cuecas, todo encharcado, dormindo. Dormindo de roncar.

Um grito ecoa forte, muito forte pelo edifício Eugênio de Alencar:

É a carta É Pilha fazendo BLAU!!!!!!

As luzes dos apartamentos se acendem, pessoas aparecem nas janelas, teu pai levanta só a cabeça e no silêncio depois da corneta, todos ouvem juntos, intrigados, um som mais do que misterioso:

BABLUG!

. . .

OUTRAS CARTAS JÁ OBSERVADAS POR AÍ:

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