Carta CHORA

Carta Chora

Carta CHORA

Mensagem: Chora

Número: 4

Comentário:

A Carta CHORA é uma carta que faz parte do mundo seleto das Cartas Maravilhosas. Tristeza, desapego, felicidade, resignação, solidariedade ou vingança são interpretações possíveis para os momentos proporcionados pela carta CHORA. Mas, acima de todas as mensagens, a carta CHORA é permissão. Permissão para CHORAR.

Porque, chorar não necessariamente inclui água. Você pode chorar seco. Chorar duro. Apertado contra o peito, contra a mente. Você pode chorar fundo, sem demonstrar o choro.

Porque uma coisa é chorar, outra coisa é ser visto chorando.

E quando tudo que podia ser feito, não foi feito, chorar é permitido. Para o bom, ou para o mau.

Chora meu filho. Chora tudo.

Outra característica maravilhosa da carta CHORA e que ela não pode ser substituida por nenhuma outra carta. Ela é única e insubstituível. Se o momento for de chorar, jogue a carta CHORA sem medo de nada. Nenhuma outra carta apresentará mesmo sentimento e seria um desperdicio de oportunidade.

– Chora neném.

Exemplo Ilustrativo de Uso:

Você convida um amor muito antigo pra sair contigo. Você na nova fase de sua vida, bem, bonito, malhando, fazendo yoga, cursinho de culinária, direção defensiva, alugou um apartamento em São Domingos, comprou furadeira, serrote, martelo, chave de rosca, tá de fusca, tá de prancha, tem um mac, tá dando aula pra criança, fez documentário no Haiti, juntou dinheiro, comprou sofá, comprou Frostfree, assinou a NET, parou com tudo, consertou a tomada da sala, faz waffle de manhã, faz francês à tarde, toma banho frio, escova os dentes de trás, penteia o cabelo, liga a bomba, afaga o cachorro novo, pintou o escritório do papai, sente que a única coisa que está faltando nesse momento é uma mulher, uma esposa.

Você, que tem medo de amar uma nova maçã que você ainda não conhece, decide ligar para uma maçã que você já conhece e já amou e ainda ama e ainda quer amar mais, mais e mais.

Você liga na segunda, marca um encontro na quinta e sua cara pipoca de espinha na terça de nervoso. Você liga pra ela na quarta, desmarca da quinta e marca pra outra quinta. Vai na empresa de recuperação de fachada, volta melhor. Toma um banho de sal grosso, deixa passar a semana, compra uma blusa nova, vai na praia quinta de manhã, grita quando mergulha na água do mar: aaaaaaaaaaa! Grita debaixo d´água, lógico.

Você volta pra casa. Tensão no ar, poucas horas restam. E você pensa na centésima alternativa de declarar seus sentimentos de uma maneira que dê certo.

Você que marcou as 22h fica pronto às seis da tarde. Janta ansiedade pra passar o tempo, bebe água, vai na varanda e se agarra na tela de proteção que muitas varandas tem agora. E fica agarrado na tela, olhando pra baixo, antecipando tudo. Testa quadriculada, você volta pra cozinha e janta de novo, bebe água e volta pra varanda e se agarra na tela de proteção, antecipando tudo. Testa quadriculada, você volta pra cozinha e janta e faz isso mais cinco vezes sem perceber, até que você vê sua testa no reflexo da porta do fogão e bola. Você lança uma compressa de água quente na testa e espera ela voltar ao normal. Seis e quinze isso.

E fica na compressa, acompanhando a evolução pelo espelho. Mas dá 19h, você não aguenta e sai de casa!!!

Roda, roda, roda com seu fusca pra passar o tempo e pensa agora na milésima alternativa de como você vai declarar seus sentimentos de uma maneira que dê certo e a gasolina acaba. Puta merda. Você sai do carro no meio do sinal, toma mais de uma buzinada no ouvido e empurra o carro devagar até a calçada. Caralho! Você abandona o carro e vai pra casa do seu antigo amor de táxi, mesmo.

Você de cara já quebra a promessa que você tinha feito pra você mesmo antes de fazer isso tudo, de nunca mais mentir pra ela: mentindo. Você diz que você fêz as contas e andar de táxi custa muito menos e é muito melhor que ter um carro.

Ela não acredita, você sorri, ela também e seu coração bate forte!

Na hora do chá, depois de conversar sobre tudo, você não se lembra mais qual foi a alternativa que você escolheu de declarar seus sentimentos de uma maneira que dê certo, mas mesmo assim, segura na mão dela e olhando nos olhos dela, meio nervoso, mas completamente sincero, arrisca tudo e diz:

– Eu estou numa nova fase de minha vida, bem, bonito, malhando, fazendo yoga, cursinho de culinária, direção defensiva, aluguei um apartamento em São Domingos, comprei furadeira, serrote, martelo, chave de rosca, tô de fusca, tô de prancha, tenho um mac, tô dando aula pra criança, fiz documentário no Haiti, juntei dinheiro, comprei sofá, comprei Frostfree, assinei a NET, parei com tudo, consertei a tomada da sala, fiz waffle de manhã, faço francês à tarde, tomo banho frio, escovo os dentes de trás, penteio o cabelo, liguei a bomba, afaguei o cachorro novo, pintei o escritório de papai e agora senti que a única coisa que está faltando nesse momento é uma esposa que no caso é você. Só pode ser você.

Ela olha pra você com os olhos enchendo de água e de forma suave e confiante diz:

– não.

A carta CHORA foi puxada por você mesmo para você mesmo, num raro, porém sublime, momento de auto uso do Baralhinho do Momento.

Porque uma coisa é chorar, outra coisa é ser visto chorando. E a carta CHORA, que foi feita pra deixar chorar, e chorar muito, também permite que você faça isto sem ser visto, para preservar o pouco que sobrou de sua dignidade. O resto, meu amigo, é mudar de assunto e pedir a conta, chefe.

Obrigado.

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