Carta ATURA O PARABÉNS

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Carta ATURA O PARABÉNS

Mensagem: ATURA O PARABÉNS

Número: 5

Comentário:

Antes do comentário, vem a história.

A carta Atura o Parabéns nasceu de um momento sublime, como todas as cartas do Baralhinho do Momento. Para deixar documentado o seu aparecimento, ainda que nos registros virtuais, reescrevo o relato do próprio criador do momento Atura o Parabéns, o fabuloso e inigualável Tales Cosmo, o Arquivista.

Segura a marmota:

“O Arquivista foi convidado para comparecer à festa de aniversário de um amigo do amigo. 

O garotão aniversariante é filho de um brigadeiro aposentado e tinha o clássico e aclamado estilo playboy coração de ouro: amado por todos, quando proporciona momentos de festa e esquecido pela maioria, quando não proporciona nada.

A hora da festa chega e o Arquivista chega junto. O Arquivista, como é de sua personalidade, chega mais reservado, trabalhando o detalhe. Já o amigo que lhe trouxe, chega fanfarrando, contando histórias, bebendo tudo o que era de birita e comendo tudo que era de petisco, chegando também nas gatinhas, tentando a sorte, mas não conseguindo nada.

Lá pelas tantas, festa partindo pro seu declínio, o amigo comenta com o Arquivista que existe outra festinha de um outro amigo para ir, bem mais animada e com muito mais mulheres e birita e petiscos do que a festa atual. O Arquivista acha interessante.

Mas na hora exata que estão confabulando a retirada, a mãe do aniversariante adentra a sala empurrando uma mesa com um bolo. E anuncia que está na hora de cantar o parabéns.

Diante desta situação, o amigo sussurra no ouvido do Arquivista: “vamos nessa, porque o momento é agora e eu não vai ser impedido por um bolo de leite condensado”. O Arquivista recebe a luz, mas espera o melhor momento.

Quando o amigo atravessa toda a sala do apartamentão e chega na porta sem se despedir de ninguém, quase que se dando bem na saída à francesa, o Arquivista soa o alarme em voz alta e grave, num momento eternizado pela história:

– VAI EMBORA NÃO, GAROTÃO! COMEU, BIRITOU, ZOOU TUDO E AGORA NÃO QUER CANTAR O PARABÉNS?? ATURA O PARABENS! ATURA O PARABÉNS! ATURA O PARABÉNS!!!

Todos olhando pra todos, o garotão retornando resignado, estado de choque na sala de estar e alguém puxa, pra quebrar o clima, um meia bomba parabéns pra você, nesta data querida e tudo mais”

E assim nasceu o momento Atura O Parabéns.

– Só isso?!

Só isso não, otário, foi demais esse momento. Você que não tá pegando o barato da jogada… De qualquer forma, vamos saudar com bravos, o maravilhoso Tales Cosmo, o Arquivista. Bravo! Bravo!

Bom, como vocês de sensibilidade pura puderam perceber, o momento Atura o Parabéns, antes de sua perpetuação nas Cartas do Baralhinho do Momento, existiu como vida. Esta, aliás, é a beleza do Baralhinho do Momento.

Nada é criado, tudo é vivido.

E embora a Carta Atura o Parabéns tenha sido criada num momento específico como vocês acabaram de ler, sua mensagem se aplica a quase todos os campos da jornada humana na Terra.

Porque o momento Atura o Parabéns é um momento de persistência.

Não é raro, diante das nossas limitações corpóreas, a gente se colocar em situações de difícil saída. Muitas vezes, nossos desejos são maiores que nossa capacidade de realizá-los e no meio da ponte, você chora e sente que foi longe demais. Você chora, porque percebe que não terá forças suficientes para seguir adiante, nem forças suficientes para voltar. E nesse momento agonizante de desespero muito forte deve brilhar a força de aturar o parabéns e prosseguir. Se você se concentrar e sussurrar para sua fragilizada consciência as palavras “Atura o Parabéns”, você conseguirá.

Ao mesmo  tempo que se você, que é normal pra errar e segurar a bomba, errar e tiver que segurar a bomba, mas a bomba arrebentar no seu colo, devastando não a carne, mas a honra e a dignidade, então você deve aceitar o momento de aturar o parabéns para, humildemente, se recompor e encarar de peito aberto chamuscado a responsabilidade do seu erro. Só na virgula. Atura, meu filho, atura o parabéns, que não é vergonha pra ninguém.

O fim da corrida é a recompensa dos que sofreram pra chegar, já dizia o monitor de física quatro da faculdade de engenharia do abandono.

Sendo assim tão ampla, a carta Atura o Parabéns pode ser usada de infinitas formas. Aliás, são assim as Cartas do Baralhinho do Momento.

Porque, de infinito, os momentos estão cheios.

A Carta Atura o Parabéns pode ser usada de você pra você mesmo, de você pra outra pessoa e de outra pessoa pra você. .

Bom, quando você acha e lê um folder de 5 páginas duma festa rave lá em São Tomé da Curva, no interior do estado e decide ir sozinho de guerreiro muita sorte e chegando lá, a festa é um óbvio fracasso, porque não tem ninguém, nem nada, além de você, um dj guatemalteco, dois raveboys de niterói, sendo que um completamente fritopan, porra, você tem que Aturar o Parabéns, amigo. Acreditou no folder photoshop? Agora pede água, abre o biscoito e atura o parabéns.

Quando você acompanha seu amigo para buscar um cachorro de raça, que ele ganhou de um outro amigo milionário e vocês chegam na veterinária e ela começa a chorar de alegria agarrada no seu colo, na hora que seu amigo anuncia que vocês vieram buscar o Yuri, você já sabe que deu merda. Você, que ainda está na dúvida se ela está chorando de alegria ou de tristeza, por estar levando o cachorro Yuri embora, passa a ter certeza de que ela está chorando de alegria, quando duas outras moças vem sendo arrastadas por um animal incompreensível de dois metros de largura, babando e destruindo tudo pela frente e que agora vai embora, porque é seu, filhadaputa! É seu! Quer dizer, é dele, é dele! Do seu amigo. Bom, você com dificuldade, puxa a carta pro seu amigo aturar o parabéns. Veio buscar o monstro de raça que cada filhote, dizem, custa 5 mil prata? Agora Atura o Parabéns, filhote!

Quando você sai da festa bêbado com seu amigo e resolve, apesar de protestos desesperados, fazer um surf nos carros estacionados, sobe no primeiro que aparece e quica no teto, fazendo PLUF, PLUF, PLUF, afundando tudo e estragando a porra toda e de dentro saem dois policias armados até os ovos, porque o carro era da polícia e você não viu, só lhe resta aturar o parabéns. Seu amigo puxa a carta pra você e você atura, aceita a algema, aceita o banco de trás da viatura, mas pede pro PM pra pelo menos ligar a sirene, que pelo menos você quer tudo que tem direito.

Pois é, jovens usuários do Baralhinho do Momento, a resignação serena, a força de vontade de vomitar, a decepção calada, o arrependimento inútil, o ombro amigo, a mão do cafuné são sentimentos e partes do corpo que acompanham a carta Atura o Parabéns.

E nem sempre seu final é triste, como foram os finais dos exemplos acima. Vejamos no Exemplo Ilustrativo de Uso, como a persistência é uma das mais misteriosas qualidades humanas, quando ao mesmo tempo que aprisiona o corpo, liberta a alma – ainda que não necessariamente – e o final feliz, nem sempre é o final.

Exemplo Ilustrativo de Uso:

O dia começa com uma checada dolorida no orkut, que tanto tem lhe trazido de tristeza por possuir apenas dois amigos e uma amiga, os quais você nunca viu. E com certeza, eles só te adicionaram pra fazer número de friends e assim o mantém lá, porque não respondem seus scraps de “envie alegria com frases feitas”, que são deletados com uma velocidade, que chega a ser agressiva.

Seu perfil é sincero, sua foto é mistério, seu album é vazio e seus recados são apagados por método. E não porque ninguém pode ler o que as pessoas te escrevem, mas porque até hoje você só recebeu 5 scraps, sendo que três de putaria e dois de spam de rave. E mantendo seus recados zerados, ninguém tem como saber que, na verdade, você nunca recebeu nada.

Mas há pouco tempo, você caiu dentro e habilitou aquela novidade que é de saber quais pessoas te visitaram. “Foda-se, habilitei e vamos ver quem é que me visita, mas não fala”. Entretanto, isso só confirmou que seu perfil não é acessado desde abril de 2005. E você que acreditou na facilidade virtual e se aventurou profundamente, apenas confirmou sua condição verdadeira para a solidão. E você atura esse parabéns cada dia que entra na internet. Atura o parabéns e chora na fria madrugada.

Mas um dia…

Um dia você chega em casa e liga o computador. Procedimento padrão. Disca pro modem e aguarda o ruído. Nada. Tenta vinte vezes, só consegue entrar na vigésima primeira e a 12400 bps. Porra, modem e telefone velho é foda, só a página do IG leva 10 minutos pra carregar. Você digita www.orkut.com e tecla enter, o computador quica e trava. E você, que não tem dinheiro e entra de internet discada depois da meia noite, agora ainda vai ter que se arriscar em mais um reset.

Como diz o técnico de informática: “computador é igual a avião, ou dá merda na decolagem, ou dá merda na aterrisagem”. Então, atura neném, mais um desligar e ligar.

Mas até que o computador aturou e decolou legal. A máquina checa trinta vezes os oito megas de memória RAM e vai. Você busca a rede dial up e depois de mais vinte tentativas, consegue a tradicional merreca de conexão, digita o endereço do orkut de novo e desta vez vai.

E de repente, na observação atenta da sua página solitária, você leva o choque! Porradão! Varetada! Bico de Búlsen!

Uma menina entrou na sua página!

Coração pára, você já se arrepende de não ter separado dinheiro pra comprar aquele desfibrilador portátil, aperta o peito forte e pensa: “porra, morrer agora é sacanagem! Atura o parabéns, meu coração, atura pelamordedeus!”

Teu coração atura e você se levanta, voa pro computador e vai atrás do nome. O nome te leva a uma menina linda linda linda linda totalmente, com sorriso maravilhoso, bochechas de maçã, profile inteligente, que gosta das coisas que você gosta, que detesta as coisas que você detesta e está single! aí você desmaia. Só acorda no outro dia, com a internet ligada direto e sua conta de telefone batendo recorde. Essa você só vai aturar no final do mês, mas vai aturar. Atura tudo.

Você observa melhor a página dela e descobre seu contato de MSN. Você decide instalar o Messenger e se cadastrar, porque o que antes não fazia sentido nenhum, hoje é a providência mais curta. Vai te custar uma madrugada inteira de download, mas você atura mais esse parabéns, porque não aturaria?

Na outra madrugada e em todas as outras que se seguem, o fato de só haver um único contato na sua lista de contatos do MSN faz total sentido. A conversa com a menina é linda, as idéias da menina são lindas e as fotos que ela mandou mostram que ela é muito muito muito linda. 

As conversas paralelas ela organiza com parênteses, as conversas transversais ela sinaliza com colchetes, as conversas principais ela demonstra um interesse e seu coração aperta tão forte e sangue tão devagar, que você se apaixona. Ela pergunta:

[E suas fotos, vc não tem fotos?]

“Não tenho, meu scanner quebrou e minha câmera digital caiu na piscina” é a primeira e última mentira que você conta pra ela e ela rebate:

{então nós temos que nos encontrar ao vivo, pra eu te conhecer. Do jeito que você fala, eu aceito o risco}

Delírio de loucura. E na última mensagem, ela define a dificuldade:

(Eu sou de Vitória, a capital do Espírito Santo)

No ônibus pro trabalho, você busca uma solução. Sem dinheiro, sem nada, como é que você vai a Vitória, a capital do Espírito Santo?

Vitória é longe demais pra ir a pé, a passagem de avião é humilhante demais pros seus padrões financeiros e se vender tudo que você tem, não dá dez reais humilhante demais! Você respira fundo e Atura o duro parabéns de perceber, que aos 29 anos de idade, você não deu certo.

Quando de repente, entre o arrependimento e a resignação, você ouve um som muito bonito de harpa angelical e um feixe de luz maravilhosa ilumina o telefone do escritório, que toca pela primeira vez em vinte dias. Você atende e não é engano, é Rose, minha nossa, Rose quanto tempo, Rose não fala isso, Rose, um trabalho, mas  Rose, sem dinheiro, Rose, sem dinheiro não dá, Rose, tô precisando muito de dinheiro, Rose, peloamordedeus, Rose, eu sei que é para um grupo de dança de deficientes, Rose, tudo bem que tem passagem paga, Rose, mas eu não me alimento de passagem, Rose, também preciso de ajuda, Rose, tá bom, Rose, tá bom, Rose, não chora, Rose, eu faço, Rose, eu faço, eu faço… Rose, aonde é o trabalho?

– Vitória, a capital do Espirito Santo.

Você está nos jardins do Éden, adorando a conversa com a Pomba do Espírito Santo, mas não dá mais tempo, você tem que sair fora. Você bate no ombro da Pomba, acorda num leito do hospital Antônio Pedro, desconeta o soro, os sensores, tira os esparadrapos, tira o avental, veste sua roupa, empurra o médico e mete bronca pelas ruas do Centro. Que horas tem, meu deus, que dia é hoje, cadê o aeroporto? O vôo 1306 pra Vitória?

A mente acalma, o vôo é no dia seguinte, você vai pra casa e coordena as atividades simultaneamente: arruma a mochila, entra na internet e procura o máximo de dinheiro possível entre bolsos e canecas, cantos e gavetas de sua kitnet.

Tirando a parte do dinheiro, que até agora você só conseguiu sete reais e trinta e três centavos, você conclui todas as tarefas com êxito. Mochila pronta, messenger conectado, você combina com a maravilhosa menina linda de encontrá-la no aeroporto. Ela diz que vai estar de calça jeans e blusa florida e você diz que vai estar de bermuda de tactel e camisa pólo do posto esso. Não compra roupa há três anos, agora Atura o Parabéns. (Hihihi), ela diz e você volta pra sua busca pelas moedas perdidas.

De manhã, você conta tudo que encontrou, oito reais e dezessete centavos e separa as moedas de 5 e de 1 pra eliminar logo o maior volume na passagem de ônibus até o aeropotro. Você sai de casa parecendo um personagem de RPG, com uma mochila, um cantil d’água e um saco de moedas na cintura.

O trocador xinga muito, mas não é dinheiro, meu chapa?! Então Atura o Parabéns e conta tudo. Você chega no aeroporto e resolve rápido. O avião se prepara pra decolar, você pensa no seu computador dando reset e reza, mas dá tudo certo, o avião sobe bonito.

“Clube social de graça?! Avião é mesmo um luxo” e você come bem devagar pra saborear, não o biscoito, mas o privilégio.

O piloto avisa, o avião se prepara pra descer, você pensa no seu computador dando reset e reza, mas dá tudo certo. O bicho quica na pista, só você bate palma, a aeromoça agradece e você parte pra fora do avião.

Você pisa na pista, dá uma olhada geral em sua volta e tem certeza: “Vitória é linda”. No saguão, você caminha apreensivo, procurando a beleza em sua forma viva.

E de longe, você vê a menina, tal qual te descrevera na mensagem virtual. Calça jeans, blusa florida, agitando freneticamente um copinho com gelo e guaraná, sorriso lindo, tudo perfeito e maravilhoso. Você se aproxima e a toca. Ela se vira e

[GAAAAAAAAAA!!!!!]

VOCÊ só tem um metro e dez de altura!!!!!!!!!

Tatataratatatááá. Surpresa total!

A questão e a seguinte, sem confusão, só surpresa: a menina de Vitória é realmente linda, mas você – destino e internet são foda -, você é um cara inteligente e tal, mas que só tem um metro e dez de altura e nada mais!

A menina bola e aqui vamos fazer uma pausa no exemplo ilustrativo de Uso para exercitar de forma não interativa o uso do Baralhinho do Momento.

Dada a situação acima, sendo você, não mas você, nem o cara, sendo você a menina que, depois de vários dias de trocas de mensagens maravilhosas, românticas e instantâneas, com detalhes inteligentes e humor sofisticado, marca um encontro heróico e arriscado no aeroporto e o malandro que aparece só tem 1 metro e dez de altura!

TUCA!

É isso ai, amigo, um metro e dez, aos vinte e nove anos de idade.

Estando você nessa situação da menina e portando as Cartas do Baralhinho do Momento em suas mãos,  você puxa:

1) a Carta Foda-se, e parte pra dentro, sapecando uma bitoca?

2) a Carta Não Mete Essa, cospe no chão e sai fora revoltada?

3) a Carta Calma, e tenta, discretamente, alcançar o spray de pimenta?

4) a Carta Chora, e chora, chora muito?

5) a Carta Atura o Parabéns, compra ingresso no playland, leva o garoto  pra piscina de bolas e depois pro mini pôney?

6) a Carta Só Está Faltando O Poodle, e começa a rir de forma descontrolada?

7) a Carta Fala Tudo, e ouve todas as explicações e desculpas e esperanças até o fim?

8) a Carta Ai Você Me Quebra, pede uma mesa pra dois, mas com cadeirinha de bebê?

9) a Carta É Pilha, e fica parada, estática, se negando a aceitar o destino?

Seja qual for sua resposta, porque a interatividade aqui está, quem diria, restrita, eu vou dizer o que aconteceu.

Aconteceu que independente do que pensa a maioria, a menina sorri, estende a mão pra você e vocês dois juntos vão tomar um refrigerante na praça dos namorados. Sentados lado a lado, observando o céu, a água e a árvore de natal, e com as palavras que completam qualquer falta, vocês se beijam loooooooongamente.

A vida muda tanto, que você não cresce, mas seu novo ramo na capital do Espirito Santo prospéra. Você compra uma casa, ela se forma na medicina e vocês tem filhos alternados, um baixo, um alto, um baixo e um alto.

Quando na festa de fim de ano, o seu mais novo quebra o aquário derramando água e peixe por toda a sala, e da cozinha, sua agora linda esposa lhe pergunta se você vai querer palmito na salada, você suspira e Atura, feliz total, o parabéns da vida, que não pára de lhes trazer felicidades.

Tin Tin e feliz ano novo, meus amigos!

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OUTRAS CARTAS JÁ OBSERVADAS POR AÍ:

tb_fodasetb_naometessatb_calmatb_choratb_parabenstb_poodletb_falatudotb_quebratb_epilha2tb_10_vaitb_11_temtb_12_voltatb_13_solta