Amor e ódio, conflito de interesses, ou os três?


Xuxa é artista da Rede Globo, faz programa de respeito, traz anunciantes para o horário, traz dinheiro, tem uma moral, agrega um valorzinho, ajuda uma rapeize. Eurico Miranda é Bicho Papão, Cuca, Lobo Mau, tá sempre na esquina, tem sempre um porém,  tem sempre um não é meu, um nunca vi, um foda-se e, particularmente, naquelas semanas que antecederam a final do Campeonato Brasileiro, ele vinha dificultando o trabalho dos repórteres das Organizações Globo, principalmente do Extra, proibindo-lhes a entrada em São Januário para a cobertura dos treinos e vetando entrevistas com os jogadores e comissão técnica. Eurico stuff.


Bom, dia 31 de dezembro de 2000, você abre o jornal O Globo que teu pai assina e está escrito grande na capa "Em vez de festa, tragédia". Você que já viu pela tevê, procura novas informações entre os pontos de exclamação e as frases de efeito. Era realizada a finalíssima do Campeonato Brasileiro no estádio de São Januário e parte do alambrado caiu, levando a maior galera. Dos três feridos em estado grave, nenhum corria mais perigo de vida. Um box dentro da matéria reunia depoimentos de vítimas ainda no gramado. "Vi um torcedor quebrar a perna na minha frente", "Machuquei o joelho e acho que quebrei a costela", "Alguém pisou no meu pescoço", e por aí foi.


Dia 12 de janeiro de 2001, você abre o jornal O Globo, que teu pai assina e um oitavo da página lhe chama a atenção, "Fogo em cenário do Xuxa Park fere 26". E você, que viu rapidamente pela tevê na noite anterior, procura novas informações entre depoimentos de tristeza e frases de efeito. O incêndio começou no cenário e se alastrou rapidamente. Foram 26 feridos, sendo quatro em estado grave e dois deles, uma criança e um segurança, ainda correndo risco de vida. No meio da matéria, um box entitulado "Uma fábrica de sonhos" discorre sobre a maravilha e a grandiosidade do Projac.


A diferença de destaque dos dois eventos nas primeiras páginas do mesmo jornal é compreensível sim, sem vodu. Compreensivel pela hora em que aconteceram os fatos e pela expectativa da imprensa em relação aos dois eventos. Em São Januário, as 16:00hs era realizada a final do Campeonato Brasileiro de Futebol, que depois da Copa do Mundo, é o evento mais importante do país. Todos os repórteres, tevês e rádios estavam lá, esperando pela notícia, ainda que fosse apenas o campeão. No programa Xuxa Park, era somente mais um dia de gravação, normal, tranquilo, num lugar privado e às 20:45hs da noite. Ninguém estava esperando nada.


Mas nos dias seguintes, é de se esperar que os repórteres cumpram suas funções de apurar e informar com responsabilidade seus leitores. Porém, o que se viu foi um amontoado de especulações virando notícias para o lado de Eurico e abordagens duvidosas, típicas de assessoria de imprensa, para o lado da Xuxa. Enquanto uns estavam preocupados em encontrar defeitos, outros estavam preocupados em destacar qualidades e os fatos concretos, que é o que geralmente importa, ficaram em segundo plano. (se ligou nas manchetes?)


A diferença no tratamento desses dois acontecimentos demonstrou uma intenção clara de, no lado da Xuxa, esquecer o acidente e, no lado de Eurico, não esquecer.


    Sobre São Januário, os repórteres fizeram papel de videntes e anteciparam os laudos dos peritos, publicando, no dia seguinte, texto com a seguinte manchete: "Superlotação e corrosão das grades de São Januário". No dia seguinte! O perito nem tinha acordado.


    Sobre a Xuxa, os assessores-repórteres se importaram mais em saber suas condições sentimentais, do que apurar as causas do acidente. Se, por exemplo, havia também superlotação no estúdio do Xuxa Park. O Jornal do Brasil de 26/01/2001 foi o úníco que publicou: "(...) ' Temos depoimentos afirmando que havia mais de 300 pessoas no local, sem contar com as equipes de gravação, quando a própria direção do Projac informou que a capacidade era de 84 pessoas sentadas ou 125 de pé’, disse Zaqueu Teixeira, delegado da 32 DP Jacarepaguá.(...)"


O tempo passou, os processos acabaram, ninguém morreu e ninguém foi preso. A imunidade parlamentar de Eurico Miranda (na época) equivalia a imunidade mitológica de Xuxa e os repórteres fizeram disso seus pontos de partida, torcendo e retorcendo os fatos.


    Um alambrado caiu, um cenário pegou fogo, pessoas feridas por manchetes corpo 72 e boxes com detalhes duvidosos. Hoje quando abro o jornal e, acima das matérias, vejo em destaque, em negrito, a palavra TERROR, acho graça. Quando vejo matéria do Jornal Nacional com trilha sonora de suspense, choro. Afinal, somos humanos. Todos nós.


     A imprensa brasileira continua lutando pela sua liberdade e isenção, resistindo a qualquer tipo de controle e eu apoio tudo. Sou totalmente contra o controle da mídia. Qualquer controle, qualquer mídia. 


    O que eu não gosto, na verdade, são destas propagandas que vendem perfeição. 

Xuxa meneguel vs Eurico Miranda


A queda de uma parte do alambrado do Estádio São Januário feriu 168 pessoas, sendo 3 em estado grave, no dia 30 de dezembro de 2000. O incêndio no cenário durante a gravação do programa Xuxa Park feriu 26 pessoas, sendo 4 em estado grave, no dia 12 de janeiro de 2001.


Fatos semelhantes com tratamentos diferentes. Especulações virando manchetes e assessores de imprensa trabalhando na frente dos repórteres. Um caso de amor e ódio da imprensa, que se proclama livre e isenta.

Este pequeno ensaio foi publicado no jornal O Óbvio número 3 de janeiro de 2002 a partir de reportagens do jornal O Globo, resgatadas do acervo das bibliotecas Nacional e da ABI (Associação Brasileira de Imprensa).


Antigamente, o ensaio começava com vários trechos das notícias, além das manchetes, mas um incêndio no meu arquivo central acabou com quase tudo. Restaram um grampeador, uma preá e as manchetes. Mas já dá para vocês perceberem como era o resto das matérias lendo só as manchetes.


- E a preá?


A preá faleceu dois anos atrás de enfarte. Foi de repente, foi foda.


O fato do ensaio ser sobre a Xuxa, o Eurico Miranda e o jornal O Globo foi por coincidência dos fatos mesmo. Eu sou leitor do jornal O Globo há vinte anos, porque meu pai assina esse jornal e eu leio na rebarba. Leio tranquilo, gosto de umas coisas, reclamo de outras, tenho amigos que trabalham lá, fui a praia ontem, quer dizer, vida que segue. Cada um na sua camiseta. E a Xuxa, eu já apreciei muito, como apreciei a Xuxa na minha adolescência trepidante. E Eurico, já chamei de nome feio no maracanã, tá tudo certo. Tenho nada a ver com ninguém. Meu esquema é com a notícia.


Agora, as tragédias que geraram estas notícias aconteceram no espaço de uma semana. E a diferença de tratamento que o jornal e os jornalistas deram para cada situação me chamou atenção. Mais pela curiosidade e debate, do que por uma caça as bruxas, ou uma bandeira da ética e moralidade do mundo contra a conspiração do mau. Tô calmo. Quem rouba sempre perde. E o mundo é bem maior do que parece. 


Agora, não vem de propagandinha de isento não, que vai tomar vaia!


Falando nisso, fiz algumas modificações no texto original, porque o jovem que escreveu este ensaio era, aham, um pouco mais revoltadinho e panfletário que hoje, mas a intenção era boa.


Segura a peteca: 

Segura essa manchete!

Só pra ver como é que fica. Só pra dar uma olhadinha. Na moral?

Texto original: "Vítimas foram heróis na tragédia - Abalada, Xuxa não dorme e chora muito"; O Globo, 14/01/2001

Texto original: "Câmara aperta o cerco - Michel Temer promete apressar o julgamento para quebra da imunidade de Eurico"; O Globo, 03/01/2001

Texto original: "Tristeza toma conta de Xuxa após acidente - Abalada, a artista tem chorado muito e só sai do silêncio para consolar mães e parentes das pessoas feridas";  O Globo, 14/01/2001

Texto original: "ACM avança sobre Eurico - Presidente do Senado quer que o dirigente vascaíno perca a imunidade parlamentar"; O Globo, 02/01/2001

esse sítio não é atualizado, ele é enchido, vai enchendo. não tem ordem, não tem nada. tem isso e mete bronca.

Xuxa vs Eurico

Os excessos de uma imprensa passional