O arquiteto Oscar Niemeyer balbuciou numa palestra a frase "o dinheiro ainda vai acabar com tudo, bububu...". A parte do bububu eu não entendi nada, acho que por causa do sistema de alto-falante, mas a parte do dinheiro eu entendi perfeitamente e, arrepiado, fui além.


E observando todas as coisas ao meu redor, principalmente as coisas que são colocadas propositalmente ao meu redor, percebi que o dinheiro, camuflado em grandes idéias de marketing, começa a tomar conta das coisas, de todas as coisas. Não que as coisas sejam livres de qualquer forma, ou de todos, mas hoje você não toma mais um copo d´água de graça, não abre uma janela sem tomar uma mensagem vencedora na cara, as praças do seu bairro estão todas gradeadas e adesivadas e as crianças se divertem de capacete e joelheira, saca?


Nesta  página, pretendo, numa jornada gradual, reunir notícias que vão revelar por elas mesmas, o que o arquiteto Niemeyer quis dizer antes do bububu.

Duas coisas antes, pra ficar tudo escrito:


1. As notícias vão entrando aqui, conforme vão parecendo por aí. Ninguém vai ficar fabricando notícia sobre isso, porque infelizmente, não é necessário. O dinheiro está acabando com tudo e isso sai nos jornais, não como alerta, mas como outra forma de fazer mais dinheiro.


2. A outra coisa muito importante é que eu NÃO SOU CONTRA O DINHEIRO! (Gostou dessa babaca?) É isso ai, o mundo não tem uma cor só não meu chapa, só de branco o esquimó vê mais de trinta. Então não é porque eu critico o excesso, que eu sou a favor da falta. Eu gosto de trabalhar e gosto de receber pelo meu trabalho. Gosto de comprar as coisas com moeda e nota e não com alface, ou ovelha. Gosto de ovelha e gosto de alface, também. Gosto de ar condicionado e de tomografia ultrasupermegacomputadorizada. Mas não penso no dinheiro como fim e sim como meio.  Tem o pensamento clássico de pára-choque de caminhão que diz: "se dinheiro não traz felicidade, me dê o seu e viva feliz!". É isso ai! Aqui não tem nenhum radical, mas também não tem nem nenhum idiota. Tem um ser confuso, que acha que ganha menos do que outros pelo trabalho que faz, e trabalha menos do que outros pelo dinheiro que ganha. Mas ainda assim acredita num mundo onde a moeda de troca não seja mais importante que a troca, ou no caso com a recusa da troca, ou na maioria dos casos com a tomada a força. Eu acho, e acho sinceramente, que as revoluções tecnólogicas tem mais a ver com a nossa capacidade de criar o novo do que com a nossa capacidade de consumir o novo. E gostaria sim de viver em um mundo em que você não precise ler em todo lugar, que você não está bem por não tem determinado bem. E esse mundo, por incrível que pareça é esse que a gente vive. E sendo assim, sinto-me no direito de não só me recusar a participar de determinadas modas e filosofias vencedoras, como de trabalhar para ridicularizar o que eu considero ridículo: a farsa do bom moço, que só quer o meu pescoço. Não gostou, me processe.

  Anúncio do Banco Real no Dia Mundial do Meio Ambiente de 2006. Senti um frio na barriga, malandro...
 
Mais um exemplo da apropriação de espaços, que antes remetiam ao que cada um pensava, e que agora, obrigatoriamente, remetem a uma marca de uma empresa apenas. Daqui a pouco, o elevador do seu prédio vai ser das Margarinas Xalibu. E você vai ter que aturar.
 
  "Nem metrô se pode pegar em paz mais nessa porra. Faz o shopping, cara, reforma tudo, mas não me enche o saco. Tendo um tempinho eu vou lá, mas não fica fazendo essa palhaçada toda, pô. Tô cheio de coisa pra resolver, vocês ainda ficam adesivando tudo. Me deprime isso. "Os bons tempos voltaram?!" Como assim? Os bons tempos eram quando ninguém adesivava nada e as coisas eram de verdade, não era cenário, nem desenho, não." Esse foi um depoimento colhido por mim, sobre mim mesmo. Loucura.
 

  A primeira reportagem sobre a propaganda irregular da TIM para o Tim Festival foi publicada pela coluna de negócios do jornal O Globo no dia  12 de outubro de 2006. Uma matéria bem típica de assessoria de imprensa, sem nenhum questionamento sobre as consequências da interferência dessa propaganda no cotidiano carioca. A matéria ressalta apenas que a "boa idéia" de adesivar  duas esquinas do rio, incluindo sua faixas de travessia de pedestres, foi das agências Tatil e New Lara. Mas nos dias seguintes, o próprio jornal O Globo caiu em si e detonou as intervenções, que antes davam como boa idéia, por ferirem o Código Nacional de Trânsito. Detalhe que na primeira matéria (a direita) o cuidado era expor a marca TIM, e nas outras, as manchetas passaram a usar termos genéricos: "... propaganda ilegal de um festival de música". E O Globo também deu a si mesmo o crédito de ter denunciado a irregularidade, esquecendo que foi o primeiro a divulgá-la. É a política do morde e sopra ao contrário. Primeiro sopra, depois morde.

Mermão, se a New Ad, que produziu a peça ao lado, é líder do segmento de mídia indoor e este ano vai dobrar o faturamento, é pra gente esperar o pior. Eles vão adesivar muito mais coisas do que já adesivam. Esse ai do lado, você vai se olhar no espelho e toma, sem ter pedido nada, uma mensagem de algo que você não tem. Agora nos restaurantes a gente vai fazer o pedido e vai ter que lembrar: olha, o meu é sem propaganda, tá chefe?
 
O Globo - 17/01/2006 - É meu amigo, como diz a gata na reportagem, "não é promocional, é só pra dar uma energia...", "as pessoas estão cansadas, na correria...". E isso porque do lado tinham oito desaparecidos no buraco do metrô, há três dias dentro do drama da vida que é a morte, e no caso, lenta e asfixiante. É... esse mundo tá todo fodido, cara. O dinheiro do marketing tá demais. Agora, imagina o diálogo no buraco do metrô:


- Ai, vovó, comé que tá as buscas?

- Tá foda... meu sobrinho da Van tá lá no fundo.

- Maravilha... vai um Redbulzinho aí pra dar aquela energizada?

- Quanto é, minha filha?

- É de graça.

- Opa, que beleza. Eu deixei minha bolsa no carro. Que que é isso mesmo?

- É um energético.

- Ah é?

- É, a senhora não conhecia não? Tem até o nosso slogan: Redbull te dá asaaaaas....

- Te dá asas?!!! Fala em asa não, minha filha, por favor... o momento tá russo. Tem um gelinho, não?


Deu uma merda essa porra depois... A mídia mesmo caiu de pau, mas é sempre assim. Pessoal aceita tudo, dá apoio, vende espaço e volta e meia dá uma condenada. Dia seguinte, já estão todos na pista, publicando nota em coluna social e os cacetas.

 
O Globo 16/01/2007 - Tem propaganda agora até em ovo, cumpádi. Tô dizendo, quer dizer, eu não, niemeyer tá dizendo que o dinheiro ainda vai acabar com tudo, tá aí. Até ovo agora tá vindo com propaganda. Do lado tem consultório médico também, vai deitar pra ser examinado já toma uma mensagem: Tá com dor garotão, toma remédio e paga pra mim tudo! Mas minha família é de médicos e portanto a gente já sabia, que hoje tudo eestá seguindo a doutrina dos laboratórios. Agora, propaganda em ovo é sacanagem...
 
Tô falando que o dinheiro vai acabar com tudo... Quer dizer, eu não, o Niemeyer é que tá falando isso. Mas o velhinho tá demais, tá acertando tudo. Agora as comunidades do orkut estão sendo vendidas também. Antes o pessoal do marketing ainda ficava fabricando comunidades, agora estão comprando. Fabricar dá muito trabalho. Ser original dá muito trabalho. Já vender iniciativa dá dinheiro, que é bem diferente...
 
Carta Capital 17/01/2007 - Você que ainda se divertia abrindo o biscoito da sorte e lendo as mensagens na sorte agora vai tomar uma propaganda na mente. "Olha que sorte, tem um citibank pertinho de você." Porra, que porra de sorte é essa?! Hein?! Tem citibank em tudo que é lugar, até no biscoitinho da sorte e o cara ainda chama isso de sorte. Esse mundo tá todo fudido e o dinheiro ainda vai acabar com tudo. Os biscotinhos da sorte, por exemplo, já perderam a jogada. 
 

esse sítio não é atualizado, ele é enchido, vai enchendo. não tem ordem, não tem nada. tem isso e mete bronca.

O dinheiro ainda vai acabar com tudo!